Uma palavra sobre palavras

Livros, filmes, músicas. Tudo pode se transformar em fonte de inspiração, em fonte de reflexão. Aqui, Taiana Homobono e Thaís Braga falam sobre palavras que não escreveram, mas que as fazem reafirmar o compromisso de se aventurar pelas letras.

Dificilmente um título que a partner me indicar será ruim. Ponto. Podemos discordar acerca da preferência por certos personagens, tipo Max em “Lola and the boy next door” (Perkins, 2011). Posso apropriar-me da autora por completo, tipo Rainbow Rowell. Posso até não me empolgar o bastante, tipo Hemingway. Porém todo e qualquer título sobre o qual a Taia falar vale a pena ser lido. Daí que, ainda que não tenha sido uma indicação explícita, ao saber de “Daytripper” (Moon & Bá, 2010), eu tinha que dar uma conferida, ô, pá!

O universo das bandas desenhadas (BDs) não é meu, por princípio. Apesar de "Turma da Mônica" ser o clássico da infância. Apesar das primeiras edições de "Turma da Mônica Jovem" estarem perdidas pela Marambaia. Apesar de eu entender quase nada de arte sequencial. A única exigência que tenho para comigo é ler em papel de verdade. Deve ser algo nas cores ou nos traços, não sei. Quiçá, a boa e velha idiossincrasia. 

Amazon Espanha não colaborou. 45 euros é muito dinheiro, principalmente para quem não o tem. ¡Adiós, capa dura! Alguns mini-infartos a cada vez que o carteiro não batia a porta e voilà! Uma paperback sobre essa coisa estranha chamada vida. Sobre todas as vezes que morremos e, no outro dia, seguimos. Uma das primeiras coisas que me chamou a atenção foi o fato do Brás, a personagem principal, escrever obituários para um jornal. Nessa profissão injusta que insisti em perseguir, as coisas nem sempre são como parecem. Nos filmes, os jornalistas são mais bonitos e melhor remunerados. Na vida real, é uma mistura de Scream com O bêbado e o equilibrista. Brás saca isso e a história que a ele cabe escrever está por ali, perguntando o tempo todo: se não agora, quando?

Para quem é de e para quem gosta de São Paulo, a história é um prato cheio. A conexão é real, oficial. Até para mim, que não muito fã da terra da garoa, senti aquela pontada no peito. Algumas dores não têm fronteiras. Tal como a queda de um avião ou como a apunhalada do melhor amigo. Tal como uma grande quimera ou como a sorte de um amor tranquilo. Tal como o adeus aos pais ou como o alô ao filho que acabou de vir ao mundo.

daytrip2

Escrita e cigarro são a herança e a maldição de Brás. Se pudéssemos dizer, quais seriam as nossas? Afinal, em algum momento, é preciso fazer as pazes com aqueles que nos precederam e a quem atribuímos o DNA. Eu gostaria de dizer que cheguei lá. Aliás, se lá realmente já estivesse chegado, haveria um livro nas prateleiras que contaria essa história. Como eu disse acima, o universo das BDs não é meu, por princípio. Acerca dos amigos, uma pequena busca neste site é o suficiente para indicar quem e quantos já tiveram suas paralelas às minhas cruzadas. E, cada vez que a intersecção se desfez, o sentimento de culpa por ter estragado tudo, de novo e outra vez; o perdão aos que foram embora – tudo bem, se eu pudesse, também iria e deixava-me para trás! No entanto, nenhum arrependimento do que se passou. Se eu soubesse antes, erraria tudo exatamente igual.

Não sei se algum dia terei filhos. Assim como meu coração alargou-se para amar uma cadela (!!!), é provável que eu aprenda, entre tentativas e erros, sobre isso de ser responsável por alguém. Que heranças e maldições essa pessoinha irá herdar, sem pedir? Escrita e cigarros não me parecem tão mal. Se a escrita for a própria vida, que sejam os cigarros sinais de pontuação.