Uma palavra sobre palavras

Livros, filmes, músicas. Tudo pode se transformar em fonte de inspiração, em fonte de reflexão. Aqui, Taiana Homobono e Thaís Braga falam sobre palavras que não escreveram, mas que as fazem reafirmar o compromisso de se aventurar pelas letras.

Dificilmente um título que a partner me indicar será ruim. Ponto. Podemos discordar acerca da preferência por certos personagens, tipo Max em “Lola and the boy next door” (Perkins, 2011). Posso apropriar-me da autora por completo, tipo Rainbow Rowell. Posso até não me empolgar o bastante, tipo Hemingway. Porém todo e qualquer título sobre o qual a Taia falar vale a pena ser lido. Daí que, ainda que não tenha sido uma indicação explícita, ao saber de “Daytripper” (Moon & Bá, 2010), eu tinha que dar uma conferida, ô, pá!

Seria legal falar aqui de algum livro intelectual (não sei bem o que penso sobre essa expressão) ou de um filme recente e impactante ou ainda de alguma importante mulher da nossa história. Seria legal. Podia ser. Mas acontece que em semanas de tpm só os tolos e, quase sempre, obsoletos filmes americanos salvam minha alma. Posto que (re) assisti, pela ducentésima vez, ao filme mais fútil e divertido do hall girlie movie: o Diabo veste Prada.

Nos anos 90 minha mãe adorava me levar ao cinema. Época de férias era época de pipoca e histórias, às vezes com meu irmão, às vezes só Dona Nave e eu. Em uma dessas, acompanhei-a para assistir um filme que talvez não fosse para a minha idade, ainda que não saiba bem se essa conversa de idade existiu em terrenos de D. Nave. Naquela tarde, ela havia resolvido me apresentar Barbra Streisand, que vivia a professora de literatura Rose, conhecida por sua forma aberta de ensinar e, bem, digamos que sua falta de vaidade. O filme por si já poderia virar um texto aqui, mas para já importa mesmo falar de uma das expressões favoritas de Rose: a garfada perfeita. A professora é apaixonada por comida, aprecia de verdade o ato de descobrir novos pratos, ao encontra-los, contrariando a etiqueta, ela corta tudo em pedaços, distribui o molho e espeta um pedaço de cada iguaria para, assim obter a experiência ideal. Fazendo as contas, quando vi o filme, tinha 12 anos e desde então, repito o que Rose fazia, sempre deixo um pedaço de cada coisa para fazer a garfada perfeita.

Há algum tempo, a partner apresentou-nos a cartunista Debbie Tung. Foi entendimento à primeira vista. Não sei se os excessos do mundo incomodam todo mundo. À partner, à Debbie, a mim, incomodam. Temos uma seção inteira dedicada a isso, inclusive. Por ora, quero falar sobre o segundo livro de Debbie, “Book Love” (2019). Com sensibilidade e perspicácia que lhe são peculiares, a cartunista faz uma ode aos seus companheiros, os livros, e eu penso que esse são, de longe, o melhor instrumento que qualquer pessoa, mulheres, em especial, pode usar para se munir de força, para entender seu lugar no mundo.

Marcelo Rubens Paiva (MRP) é o amor literário da partner, desde sempre e para sempre. Contra fato, não há argumentos. Na leitura de “Feliz ano velho” (1982), dá pra sacar porque o paulista marcou um xis no coração dela. O cara toca(va) violão. Tem(tinha) um lado conquistador e apreciador do universo feminino, uma vez criado entre tantas mulheres. Tem (ainda?) os pés e as mãos na esquerda marxista (embora o próprio se diga mais existencialista – e quem pode culpá-lo, dados o destino ou a casualidade dos Rubens Paiva). Mas não é de MRP que quero falar neste março de 2019, que nós do #timeLiteral ousamos dedicar às mulheres que nos inspiram.

Acho que, depois deste texto, a partner não mais vai emprestar-me livros, por motivos de: eu tomo conta das histórias. Vejam o caso de Rainbow Rowell. Não só escrevi sobre todos os livros da autora (que a Taia já conhecia bem), exceto “Fangirl”, como autointitulo-me Eleanor. Ou a própria Rainbow, quando penso que a Taia é a Stephanie Perkins. Ainda assim, arriscarei. “Coraline” (2002), de Neil Gaiman, entrou para o rol de histórias favoritas, visto que, em algum momento da vida, todo mundo já sentiu medo. Porém, Gaiman e Rainbow lembram que é preciso a mesma quantidade de coragem (ou mais até) para enfrentar o medo.

“Then there were those famous wings. 
Was Daedalus really stricken with grief when Icarus fell into the sea?
Or just disappointed by the design failure?” 

Partner tem uma teoria: distopias deveriam ser leituras obrigatórias no ensino básico. Para uma pessoa cuja aula favorita da vida era Literatura, em que não se estudavam só as características de cada movimento literário e os principais autores, como o contexto histórico qe suscitavam as questões e os quês e porquês de cada obra, levei um tempo para me acostumar com a causa perdida defendida por ela. Hoje, acho que as duas vertentes, por assim dizer, deveriam coexistir: a literatura clássica e a literatura contemporânea. Quiçá dessa forma, tivéssemos menos bolsominions no mundo. Porém, bruxa mais inteligente da idade dela, Taia alerta: assim como há seres como nós, que leem as distopias e sentem-se revoltosos, deve haver quem leia e, dali, aprenda a se tornar autoritário/misógino/sádico/racista/preconceituoso/insira-aqui-qualquer-característica-de-extrema-direita.

“Words save our lives, sometimes.” 

Passados quarenta anos, ele precisou voltar para casa, para despedir-se, porque parece chegar a hora em que apenas deixamos que as pessoas partam, somente isso nos faz voltar ao passado e lembrar. Ele lembrava, ainda que não quisesse, porque ao envelhecer não mais saibamos imaginar, somente lembrar. Há coisas das quais fugimos e há também aquelas as quais nos agarremos, uma talvez dependa da outra.

Que eu sou fã dos Obama, toda a gente sabe. Lá no comecinho do #Literal, também num mês dedicado às mulheres-inspiração, falei sobre o filme “Southside with you” (2016), que mostra como Barack e Michelle tornaram-se um casal. Quando a ex-primeira dama dos EUA anunciou o lançamento da autobiografia “Becoming” (2018), não pensei duas vezes em comprar a obra ainda na pré-venda. Acho que não fazia isso desde“HP and the deathly hallows”. Apesar de que, se eu fosse a editora, enxugaria um tico a história, sem prejuízo algum para o todo, não há outra pessoa sobre quem gostaria de falar quando em penso na categoria mulheres que têm algo a ensinar ao mundo.

“Estamos solas. No importa lo que te digan, siempre estamos solas.”

Conheci Alfonso Cuarón pelo filme “Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban”, quatorze anos depois do lançamento do terceiro filme da franquia sobre o mundo bruxo de JK. Perdoem-me, portanto, o delay na polêmica do all star no trio Harry, Ron e Hermione. Eu gosto do livro e se tem uma coisa que sinto falta, no filme, é do Peeves (principalmente, quando ele diz: “Nasty temper he’s got, that Sirius Black”). Também, gosto da fotografia adotada por Cuarón e das mudanças que ele propôs para o castelo de Hogwarts e para a cabana do Hagrid. Só!

Alfajores e vinhos são melhores no Uruguai, mas é verdade que Dárin e Javier fazem valer o encanto argentino. Como já suspiramos bastante por Ricardo – mesmo que partner ainda deva “Truman”, um dos mais fofos filmes – iniciemos o ano com um não muito novo muso: Javier Drolas.Tempos atrás, surgiu a conversa sobre Medianeras, filme que meu irmão já havia me feito começar a assistir, mas o excesso de vinhos e pipocas não ajudaram.

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