Seção restrita

Ansiedade e depressão são doenças mentais que Taiana Homobono e Thaís Braga conhecem de perto. Em parte, porque sofrem na pele. Quando o combo medicamentos e psicoterapia não são suficientes, as palavras ajudam a elaborar algumas dores.

Dos poucos que nos aproximam, duas coisas são certas: fascínio pelo mundo bruxo de JK e vontade de matar quem inventou o ciclo menstrual. Sei que, aqui, nós entramos numa briga com a galera do sagrado feminino, com as companheiras que veem o copo coletor meio cheio. Porém, em todos esses anos de indústria vital, período sempre significou: péssimo humor (que já não é dos mais estáveis); peitos do tamanho de melancias; espinhas no rosto, no busto e nas costas; ligeiro inchaço na barriga; cólicas infernais que me fazem, todas as vezes, rezar para, na próxima, vir homem; e uma espera interminável, pois entre os sintomas e sangria desatada, todo dia pode ser “o dia”.

 “Tom: Look, we don't have to put a label on it. That's fine. I get it. But, you know, I just, I need some consistency.
Summer: I know.
Tom: I need to know that you're not gonna wake up in the morning and feel differently.
Summer: And I can't give you that. Nobody can.”

("500 days of Summer", 2009)

Quem convive minimamente comigo sabe que eu durmo. Muito. De oito a dez horas, pelo menos. Todos os dias. Que, quando não durmo o bastante, fico mal-humorada. Cansada. Sem a ínfima capacidade de pensar. E que precisarei de muito mais horas de sono, além das oito ou dez habituais, para me sentir bem, de novo.

Aos quatorze, viajei para Fortaleza com as primas. Em uma noite sem forró, assistimos ao filme de terror teen do momento. Sidney recebia ligações de um serial killer. Lá pelas tantas, ao mesmo tempo que o telefone da casa de Sidney tocou, tocou também o da nossa casa. Quatro adolescentes saltaram do sofá a espera que o mascarado aparecesse com uma faca em mãos. Era só o pai das meninas querendo saber se queríamos pizza. Pânico virou meu filme de terror favorito e acho até que ele é responsável pelo meu eterno coração adolescente.

Há quem goste de mudança. Em teoria, eu me encaixo nesse grupo de pessoas. Gosto do novo, das possibilidades. Gosto, mas não sei me comportar diante disso. Deve ser alguma engrenagem errada. Eu passo, basicamente, a vida pensando em jeitos de viver outras vidas...só pensando. Cada nova situação, cria um pequeno buraco no meu estômago. E se eu parar para pensar com cuidado, vou perceber que foi assim a vida toda, como os mais diversos sentimentos.

 

Quatro semanas atrás ela veio, quase como a visita indesejada, chegando, antecipadamente, para o Natal.

A primeira pessoa de quem me lembro sentir ciúmes é minha mãe. Há uma fotografia perdida pela casa dela em que estou com uma tiara de flor amarela na cabeça e uma cara de choro, sentada à mesa para o pequeno almoço. No registro, Conceição estava a passar manteiga numa cream cracker para eu comer. Quando perguntei-lhe, já adulta, por que eu estava a chorar, ela disse: “Não sei! Esse dia era um sábado. Havia ido ao supermercado com teu pai e, na volta, sentaste sobre a gaveta do frigorífico e começaste a chorar”.

Durante um tempo, tive uma amiga japonesa que morou no quarto ao lado do que ocupava, no minúsculo apartamento da Marambaia. Creio que ela havia sido uma das primeiras pessoas a quem eu informei sobre o desenlace, porque ela fora uma das pessoas mais empolgadas na festa. Mandou fazer vestido e tudo. Deu presentão – uma grill elétrica que a Conceição adora. Pegou porre de uísque. Dançou até o chão. Fora o antes – as boas vibrações enviadas da Terra do Sol Nascente; a empolgação com o tal ensaio “pré”, com o chá de panela, com o fechamento de cada contrato/dívida.

Quanto mais vivo, mais me deparo com histórias de pessoas que sofrem de algum distúrbio mental. Na maioria dos casos, porém, a relação com o combo medicamento/psicoterapia não é tão estável quanto eu imagino.

“Tomo remédios, mas quero parar”.

“Me esqueci de tomar os remédios ontem”.

“Acho que já não preciso mais dos remédios”.

 

“Respira cachorrinho, Taia.”

Era o mantra da Thá, para mim, ano passado, em mais uma das minhas muitas decisões de abandonar e recomeçar. Engraçado como é simples dizer para o outro o que deve ser feito. Mais simples, mais lógico. Eu bem tinha vontade de responder: “Ah vá, se eu conseguisse respirar não estava no meio de uma crise de 72h de choro.” Mas é a velha história, né?! Ela sabe como é viver com o peso dos dias.

 

"Tem que cuidar disso"
" Tem que se esforçar mais"
" Precisa se acalmar"
" Mas isso é coisa da sua cabeça"

Oi, Thaís!

Espero que aí onde estás, em algum lugar do futuro, as coisas estejam melhores. Não que cá, onde o estou hoje, estejam ruins. Nós duas sabemos que já estiveram piores. Apenas me sinto naquela fase em que ... sei lá, sabe? E não saber é sempre um problema para quem sofre de ansiedade e de depressão. 

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