Por onde andei / Por onde quero ir

Viagens pelo Brasil, pelo mundo e, até mesmo, pelos bairros da cidade onde moram. Taiana Homobono e Thaís Braga transformam em literatura as experiências que viveram enquanto estavam com a mochila nas costas e, também, as expectativas para as próximas aventuras.

Madrid fez barulho e barulho me incomoda. Eu queria sair dali, talvez nunca tivesse querido estar lá. Não estava no meu plano, mas se pensar bem, a Espanha em geral nunca esteve. Ainda que Quixote seja meu tipo de super-herói, ainda paella seja um pedaço de céu e que sangria torne qualquer dia mais leve, ainda que o flamenco me faça chorar por tudo que o palco dá, ainda assim, terras espanholas nunca me chamaram a atenção. Costumo brincar que é trauma de adolescência, o que até tem seu quê de verdade; real mesmo é que sempre achei uma língua muito aberta, muito invasiva, algo que pula a etapa do convite, do passo a passo.

Mas então, por que Espanha? Se a escolha era um pouco minha, por que lá? Fácil, livros. Já disse que 98% da minha personalidade é baseada na lista atual de leitura. Então, é claro que meu destino seria o destino de um casal querido, introspectivo. Eles fugiam para lá, fugiam para seguir Gaudi, fugiam porque amores jovens fogem. Bastavam esses porquês para mim. Mas do princípio era Barcelona, acontece que eu não decidia nada só por mim, e de volta, veio Madrid. Ok, ônus e bônus.

Os dias em Madrid não foram tão simples quanto eu gostaria, mas bastou entrar no trem – porque o clichê ambulante que insisto em ser não evita viagens de trem – para a calmaria das viagens me encontrar. Bastou pegar táxi e atravessar o lado feio da cidade até chegar ao centro, na calle de destino; bastou entrar no apartamento, cujo elevador só suportava as malas; bastou olhar pela sacada para saber, era amor, daqueles antigos, daqueles que trazem a calma e a falta de pressa.

Bandeiras pedindo pela separação. Posso contar? Sou team Catalunha hasta siempre. Sou daquele povo que parece nada ter a ver com os madrileños; de menos ordem e mais vida. La Rambla se refazia do ataque, ocorrido três meses antes. Ali, na arte de Miró pairavam flores, faz sentido que usemos a arte para lembrar de como viver em tempos de guerra. Um pouco mais e, La Boqueria. O Remy que vive em mim entende um mercado como algo sagrado. E ainda que todo mundo tenha dito que o mercado de San Miguel, em Madrid, fosse imperdível, eu havia morado em SP, eu sabia que aquele tipo de mercado era para turista ver. Em Barcelona eu me diverti com os diferentes chás, com os chocolates artesanais, com pimentas e temperos. E andando um pouco mais, com umas boas cavas e um pan con tomate.

Mas havia mais. Havia o caminho de Gaudi. Isla e Marília tinham razão: A Sagrada Família mudaria meu jeito de olhar o mundo. Ela quase sabia do meu descrer. Ela desafiava tudo que eu tinha de dúvidas. Acho, de verdade, que entrar lá sem crer na instituição religiosa foi o grande trunfo que eu tinha. Gaudi contou a história do Deus que ele via, do sagrado que ele entendia. Eu gosto de histórias, eu tenho fascínio pela simbologia. Bravo, Gaudi. Eu poderia me ajoelhar e agradecer, não ao Deus da igreja, mas a arte que segue além do tempo. Sai de lá com todas as minhas dúvidas ainda mais vivas, sem nenhuma pressa ou vontade de torna-las certezas. Quero achar que em 30 anos, a Sagrada Família continuará em construção, acho que isso me dará um senso de tá tudo bem não já ser quem eu planejei.

Caso Batlló e La Pedrera são obras à parte, mas não havia muito tempo para filas. Havia tempo de caminhar no dia da Espanha, caminhar entre os catalães, até as muitas escadas do Parque Güell, o topo da cidade. Dali podíamos ver qualquer coisa e ver nada, também. Dali podíamos andar ou sentar, descobrir ou apreciar. Eu teria ficado lá até cansar. Até agora?

Barcelona me deu um reencontro comigo, sem que eu soubesse que precisava. Eu levaria um tempo ainda para entender gostava de lá porque me parecia mais real que a capital oficial. Eu tenho um certo desapego pelo que é organizado, feito para ser visto, pelo que não me diz a que veio. Tempos depois entenderia que me incomodam pessoas que guardam opiniões importantes, que escondem seus credos e verdades. Acho que por isso a capital havia me irritado tanto. Eu queria saber o que acontecia com quem não era turista; em todo momento, eu achava estar em um passeio. Não sei se vim ao mundo para passear, gosto mais da ideia de estar perdida entre as descobertas. Pode ser que pouco disso faça sentido, o que sei é que, assim como a Atenas e Paris, Barcelona havia entrado para a lista de lugares que mudaram o lugar do mundo em mim.

Continuo achando que a língua sempre será um abismo entre nós, continuo pensando que me sinto invadida em cada “holla!” recebido e que talvez isso signifique que meu amor com Barcelona será de encontros casuais. Não nego que desde nosso furtivo affair, a cidade volta a mente, com constância maior do que deveria, como o “what if” dos amores que não foram, ao menos, ainda não.

Hasta Barcelona, até a próxima cava e o próximo fim do dia no parque.