Por onde andei / Por onde quero ir

Viagens pelo Brasil, pelo mundo e, até mesmo, pelos bairros da cidade onde moram. Taiana Homobono e Thaís Braga transformam em literatura as experiências que viveram enquanto estavam com a mochila nas costas e, também, as expectativas para as próximas aventuras.

Quando no Brasil, quase ninguém percebia meu nome. Poucas vezes encontrei outros “Bragas” que não os da família paterna. Ao que tudo indica, a origem dos “Bragas” paraenses remete à Cametá, no Baixo Tocantins. No entanto, nada digno de nota; nenhum valor-notícia. Isso mudou há pouco mais de um mês, quando voltei para a casa que não sabia que tinha, para Braga, no norte português – também conhecida como Roma portuguesa, como Bracara Augusta, como coração do Minho, como capital europeia da juventude.

“Thaís Braga? É sério?”. De fato, a conexão com a cidade vai além do nome próprio. Em Braga, posso me dar ao luxo de fazer algo com o qual sonhava há um bom tempo: viver o espaço urbano. Posso ir a pé a quase todos os cantos. No entanto, se estiver indisposta, posso esperar pelo autocarro ou solicitar um táxi – que têm um peculiar olor de tabaco. Acostumas com o tempo... As poucas vezes em que vi engarrafamento foram, obviamente, em horários de pico (fim da tarde ou primeiras horas do dia) e em dias de chuva (definitivamente, direção e índice pluviométrico são inversos proporcionais em qualquer parte do mundo).

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O centro histórico bracarense reúne vários pontos turísticos, bem próximos uns aos outros. Repletos de detalhes arquitetônicos e religiosos, os mais conhecidos são a Catedral da Sé, a praça da República, o Jardim de Santa Barbara, o Palácio do Raio, o Arco da Porta Nova, entre tantos outros (que só o Google pra dar conta). Gosto de ir até lá e me perder pelas ruas, pelos bares, pelos jardins, pelas fontes de água. Sem me preocupar em foto para o Instagram ou check-in para o Facebook. O dia e a noite no centro histórico são completamente diferentes e sou encantada pelas duas formas de vida que observo por lá.

Ainda sobre pontos turísticos, os santuários de Bom Jesus e de nossa senhora de Sameiro são visitas obrigatórias. Conheço pessoas que sobem ao Bom Jesus todos os dias – afinal é um baita exercício para o corpo. Uma vez lá, impossível não agradecer aos Céus por estar vivo; pela capacidade de contemplar a cidade a partir de cima. Apesar de estar em Portugal, considero o Bom Jesus super francês – porque facilmente me imagino em um piquenique, em uma tarde a ler um livro ou num encontro com o amor da vida. Sameiro tem uma pegada mais religiosa, ainda assim, fenomenal! A vista sobre Braga fica mais especial se um pôr do sol der o ar da graça.

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Dizem que as estações do ano são bem definidas por cá. Posso afirmar que o inverno está próximo e os dias são mais frios e chuvosos em Braga do que em cidades vizinhas. Isso é motivo para se enrolar sob o edredom e assistir Netflix? Sim, se quiseres. Se não, podes reunir os amigos em casa e tomar vinho, comer pizza do Pingo Doce e rir de tudo e de nada até a barriga doer. O interessante de Braga é que, como se trata de uma cidade pequena (apesar de ser a terceira mais populosa de Portugal), todos se tornam amigos – até mesmo aqueles que julgavas mal humorados, a princípio. Por via das dúvidas, estou a espera do verão para visitar o Parque Nacional Peneda-Gerês, quase na fronteira com a Espanha.

Braga pode parecer demasiado universitário, contudo isso faz parte da natureza da cidade. Logo nos primeiros dias, vi estudantes sendo “praxados” (o equivalente ao trote universitário, no Brasil). Visualiza: um monte de jovens, aparentemente, saídos de algum filme do Harry Potter, a gritar pelas ruas. Achei incrível, até o dia em que a partner me contou que a praxe não pode ser lavada e deve conter, até o final do curso, vestígio de sangue, de sêmen e de saliva. Há boatos de que não, não é bem assim... em todo o caso, preciso pensar melhor sobre a praxe.

As quartas-feiras são, de fato, animadíssimas. Não me perguntem se os estudantes não têm aulas cedo, no outro dia. Eles costumam fazer um esquenta nos bares próximos à universidade e, lá pelas tantas da madrugada, seguem para o Bar Acadêmico, o BA. Há outras casas noturnas bracarenses, porém cada uma tem um dia certo. O Sardinha Biba, que eu saiba, ferve às sextas-feiras. Se nada der certo em todos os outros cantos da cidade, o Stephanie’s Bar estará sempre lá com música brasileira e Super Bock a um euro.

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Se, por um acaso, quiseres dar um pulo nas cidades vizinhas, Braga não se ofende. Pelo contrário, oferece comboios e autocarros para ires a Guimarães, a Barcelos, a Porto. Quem é de Braga, sabe que as portas da cidade (tais como as de Hogwarts) estarão sempre abertas para te receber de volta. Eu, que não sabia que era de Braga, tenho certeza de que achei um lugar no mundo para chamar de casa – por mais que as minhas paralelas sigam a cruzar outras highways.