Por onde andei / Por onde quero ir

Viagens pelo Brasil, pelo mundo e, até mesmo, pelos bairros da cidade onde moram. Taiana Homobono e Thaís Braga transformam em literatura as experiências que viveram enquanto estavam com a mochila nas costas e, também, as expectativas para as próximas aventuras.

Madrid fez barulho e barulho me incomoda. Eu queria sair dali, talvez nunca tivesse querido estar lá. Não estava no meu plano, mas se pensar bem, a Espanha em geral nunca esteve. Ainda que Quixote seja meu tipo de super-herói, ainda paella seja um pedaço de céu e que sangria torne qualquer dia mais leve, ainda que o flamenco me faça chorar por tudo que o palco dá, ainda assim, terras espanholas nunca me chamaram a atenção. Costumo brincar que é trauma de adolescência, o que até tem seu quê de verdade; real mesmo é que sempre achei uma língua muito aberta, muito invasiva, algo que pula a etapa do convite, do passo a passo.

 

Antes de viajar, meses atrás, eu havia dito que fora um acerto não ter viajado para a Europa aos 18. Foi quase um acerto. Foi um acerto para Paris, para Budapeste...até Barcelona, talvez. Mas não foi um acerto geral.

Miguel de Cervantes que me perdoe, mas o que me fascinou a respeito da Espanha foi a realeza. Especificamente, a entrada de Letízia Ortiz para a família real. Lembro-me de que o canal GNT exibiu, há alguns anos, uma série de quatro episódios sobre o início do relacionamento entre a então jornalista divorciada e o rei Filipe VI (com a suposta resistência da rainha Sofia). Achei tudo muito mais interessante do que William e Kate Middleton, na Inglaterra – como acho, agora, sensacional o noivado de Harry e Meghan.

2018 foi um ano para lá de estranho. Teve a opção da maioria dos brasileiros – entre os quais, felizmente, eu NÃO me incluo – de mandar Bolsonaro para o Palácio do Planalto. Teve mais de um ano longe da terrinha (por terrinha, leia-se colo da Conceição e da Hermione). Teve releitura de Harry Potter. Teve muita cilada, antes da sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida. Teve aventura pelo mundo da culinária. Teve vinho. Teve um rápido caso de amor com a língua francesa. E teve a Costa Rica.

 “Pra onde eu só veja você
Você veja a mim só
Marajó, Marajó”

(Skank)

Quando estava em Ilhabela, em fevereiro de 2017, conheci duas raparigas às quais me afeiçoei. Ao nos despedirmos, prometemos visitar umas às outras. Uma delas, com mineiridade peculiar, disse que ia até o Pará, porque queria conhecer o Marajó. Dois meses depois, foi mesmo! Aportou em Belém e, junto com a Conceição, fomos as três para o arquipélago que estava o tempo todo ao meu alcance e eu sequer havia percebido.

Quando no Brasil, quase ninguém percebia meu nome. Poucas vezes encontrei outros “Bragas” que não os da família paterna. Ao que tudo indica, a origem dos “Bragas” paraenses remete à Cametá, no Baixo Tocantins. No entanto, nada digno de nota; nenhum valor-notícia. Isso mudou há pouco mais de um mês, quando voltei para a casa que não sabia que tinha, para Braga, no norte português – também conhecida como Roma portuguesa, como Bracara Augusta, como coração do Minho, como capital europeia da juventude.

Quem nasce em terras paraenses, sabe que o mês de julho significa férias escolares e viagens para o balneário mais próximo; reuniões entre famílias e amigos; festas, diversão e muita comilança. Como não fujo à regra, desde que tenho consciência de quem sou e de onde vim, sigo para a cidade onde minha mãe nasceu e onde meus padrinhos até hoje residem: Baião, também conhecido como “um pedacinho de céu no chão”.

 

“We would be together and have our books
and at night be warm in bed together
with the windows open and the stars bright.”
(Ernest Hemingway) 

Por que será que nunca havia falado sobre ti? Pelo menos nunca assim. Havia te citado, havia deixado no ar o que nos ligava, mas nunca havia falado só sobre ti. Logo tu, entre todas as possibilidades, a mais clichê; aquela que me conquistou antes mesmo de ter sido. Logo tu, que eu tive enquanto era só uma idéia, uma história qualquer.

Eu me lembro que lá pelas tantas do remake de Ti-ti-ti, a personagem da atriz Claudia Raia envolvia-se com um surfista de Saquarema, município da região dos lagos do Rio de Janeiro – pouco mais de cem quilômetros distante da capital homônima. Após ter conhecido a cidade, na semana passada, entendi que Saquarema é mais do que cenário de novela da TV Globo. Saquarema é sinônimo de surfe; de mar; de praia; de dias ensolarados; de tranquilidade; de fé. Entendi, também, que sou uma garota de interior; que gosto das facilidades e dos serviços que uma capital oferece, no entanto é na calmaria de um interior que meu coração descansa em paz.

Em algumas situações, tenho certeza que os Céus me escutam. Como da vez em que desejei com todas as forças conhecer o Marrocos e, um tempo depois, lá estava eu em um autocarro com outras cinquenta pessoas rumo ao continente africano. De início, imaginava que faria a viagem sozinha. No entanto, a excursão veio a calhar, pois pude conhecer cidades menores, e não só as tradicionais Casablanca, Marrakesh, Fez e Rabat.

Fui dar em Budapeste graças a um trem saindo de Praga; graças a ideia de viajar com as amigas da vida, as únicas que ainda aguentam o meu humor peculiar; graças a amiga que falou, não quero ir para lugar que já conheço (sempre doce); graças ao livro do Chico que implantou a cidade na minha cabeça; graças a outra amiga, que se empolgou com a ideia de ler o tal livro antes da viagem.

Praga falou com tudo que eu mais prezo. É a terra de Kafka. Kafka que li aos 12 porque era o que estava na altura dos meus olhos. Li e entendi nada. Kafka e suas metáforas que até hoje vivem em mim.

Praga grita música clássica. E eu não sei bem quando comecei a gostar desse estilo. Mas sei que é a música que me faz calar.

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