Literal

Na busca por um lugar no mundo das palavras, a seção reúne textos em prosa e com poesia. São contos, crônicas, tentativas de folhetins. Histórias inspiradas na própria vida e, também, imaginadas pelas cabecinhas adolescentes de Taiana Homobono e de Thaís Braga.

Money que é good nós não have”. Quisera fosse privilégio dos Mamonas Assassinas. Num país como o ‘Brazeo’, meio que todo mundo sofre desse mal, que é a falta de grana. Em mais ou menos proporções, é claro. Pelo menos de onde venho, todo mundo trabalha. Médicos, advogados, engenheiros, professores, jornalistas. Todos precisam pagar boletos no fim do mês. Alguns, eventualmente, entram no cheque especial. Parcelam mais do que deveriam no cartão de crédito. Financiam casa e carro. Compram. De alimentos no supermercado a ‘brusinhas’. De jantares em restaurantes da moda a viagem para o exterior. E eu me pergunto, tal como Nando Reis: pra quê?

Uma youtuber famosa dá a fórmula: para tornar-se um investidor e alcançar a independência financeira, é preciso viver com 55% da renda mensal. Acho a postura válida, pois convém não gastar mais do que se ganha. No entanto, prefiro ampliar a discussão, como gostamos de dizer na academia. Custa-me pensar que alguém se endivida porque quer. Merdas acontecem o tempo todo. Vejam o meu caso, que nem de longe é um dos piores cenários possíveis. Nado em dinheiro? Não. Planto em árvore? Não. Trabalho desde cedo, de maneira informal. Flanelinha numa feira de exposição, em Marabá; professora de inglês e de português (acho que até de matemática); secretária numa escola pública. A primeira grande aquisição que fiz, tão logo juntei uns 300 reais, foi comprar dois pares de sapatos, à vista. Cada um custava uns 35 paus. Foi uma sensação tão estranha que minhas mãos tremiam ao pagar. Desde ali, o que mais adquiri foi pares de sapatos.

Quando reflito acerca do dinheiro que desperdicei, naqueles anos de informalidade, penso: pô, eu deveria ter economizado aquela grana. Deveria ter investido em títulos públicos ou qualquer outra aplicação. Mas, também penso: eu queria sapatos. Se minha mãe não podia comprá-los (quer dizer, ela podia comprar um par de sapatos, não todos que eu queria), então eu que desse meu jeito de adquiri-los. Roubar nunca foi opção. Quando eu penso naqueles anos, o que mais me chateia é o fato de eu nunca ter me questionado: eu preciso mesmo de todos esses pares de sapatos? Óbvio que não precisava. Não vejo só como desperdício de dinheiro (o que ganhei e/ou o que poderia ter ganho em rendimentos), mas como desperdício de recursos naturais. Consumo pelo consumo. Ainda, como desperdício de energia. Como se os sapatos fossem dar-me a felicidade e a satisfação que eu procurava.

Morava com minha mãe e não pagava grandes contas, somente a internet via rádio (topíssima). Então, comprava sapatos e salvava algum dinheiro. Quando me mudei para Belém, conseguimos mobiliar o apartamento alugado (cama, guarda-roupa, sofá, geladeira, fogão, máquina de lavar roupa, mesa com cadeiras e armário). Plural, porque metade do dinheiro veio da Conceição. Eu saí da casa dela, uma vez que queria me formar na profissão com a qual me identificava. Não tinha condições de me preparar para o vestibular da universidade federal (naquele 2007/2008, concluía a graduação na universidade do Estado), portanto a universidade privada foi a opção lógica. Em momento algum, Conceição questionou-se se os 800 reais de mensalidade caberiam no orçamento (fora o aluguel do apartamento e a minha alimentação/transporte). Minha mãe, simplesmente, deu-me a oportunidade de seguir o caminho que queria. Demorou um ano e meio para eu conseguir estágios e ajudar com as contas. Como ela conseguia equilibrar duas casas? Com bem mais de 55% da renda mensal, certamente.

Poderia esticar essa história até o período atual, contudo creio que esse prelúdio é o bastante. Se minha mãe seguisse à risca os tais 55%, poderia ter evitado alguns empréstimos consignados. Poderia, sei lá, ter feito qualquer outra coisa que ela realmente quisesse (como ser evoluído que é, custa-me a falar de quereres materiais da Conceição). O mais certo, entretanto, é que eu jamais alcançaria metade dos sonhos que alcancei. Minha mãe foi ousada em situações que eu, que me acho #prafrentex, recuaria. Isso faz de nós fracassadas? Isso quer dizer que nos endividamos porque quisemos? Aos olhos de alguns, sim. Devem pensar que minha mãe trabalha a vida inteira e ainda mora na mesma velha casa de sempre; que nunca saiu do país; que não tem um carro, etecetera. Prefiro pensar que nós fizemos o que tínhamos que fazer com os recursos que nos eram disponíveis (recursos próprios e recursos tornados próprios pelas instituições financeiras).

Educação financeira, é importante que se a tenha desde criancinha. Assim como educação ambiental. Assim como educação. Ponto. Tão importante quanto aprender a viver com o que se tem é questionar-se, o tempo todo, se o consumo desenfreado é o caminho que se quer para si e para o mundo. Será que um par de sapatos não é o bastante? Será, da mesma forma, que é tão condenável se apertar aqui e ali em busca de sonhos ousados? O bom e velho bom senso nunca sai de moda. Quanto a mim, ando preferindo consumir menos e consumir melhor. Não quero ter milhões de reais investidos. Quero viver num mundo sabendo que, quando dele eu me for, outros ainda poderão nele viver.

 

SERVIÇO:

Semana Nacional de Educação Financeira: http://www.semanaenef.gov.br