Literal

Na busca por um lugar no mundo das palavras, a seção reúne textos em prosa e com poesia. São contos, crônicas, tentativas de folhetins. Histórias inspiradas na própria vida e, também, imaginadas pelas cabecinhas adolescentes de Taiana Homobono e de Thaís Braga.

 “Não sei se vou pintar o cabelo para a formatura do mano, filha.”
“Ah, acho que não precisas pintar, Nave.”
“Se eu não pintar agora, não pintarei mais. Teu irmão falou que não é para pintar.”
“Eu concordo com ele e além do mais, a comemoração é dele, ele tem direitos.”

Cabelo é uma parada engraçada, pelo menos para mim. No grupo de amigas sempre tive que ficar calada, porque, olhe lá, meu cabelo é liso e eu não tenho direito de reclamar. Todo mundo sabe que é lei, quem tem cabelo liso queria ter ondulado e vice-versa. Comigo não foi diferente. A verdade é que nunca me incomodou ao ponto de ir ao salão fazer permanente. Nem nunca fui de muitas aventuras capilares, é fato. Algumas brincadeiras de clarear mechas e pontas, porque afinal eu sou uma garota que foi adolescente entre os anos 90 e 2000.

Eis que ano passado eu brinquei de colorir as madeixas, ou melhor, Thaís brincou. E bastou a primeira vez para entender porque me era mais fácil conviver com o cabelo natural. Sou um ser preguiçoso. Detesto gastar tempo e dinheiro com coisas que crescem e são cortadas e crescem de novo. Modos que eu já havia desistido de mudar o visual quando eu descobri o primeiro fio de cabelo branco. Quer dizer, espero que não seja o único, meu lado otimista jura que existem alguns outros espalhados.

Não, não é pressa de envelhecer, ainda que eu ache que tenha pulado da adolescência (que não sei bem se já acabou) para a velhice. É que quando os primeiros cabelos brancos de Dona Nave surgiram, eu achei aquilo de uma elegância incrível. Segundo ela, são reflexos...do tempo. E aí dá para entender porque eu amo tanto clichês, filha de peixe. Achava incrível que mesmo que ela os pintasse, aquela mecha se mantivesse mais clara que o resto, insistindo em existir. Meu irmão já havia me dito que adorava olheiras – de novo a parada do tempo, e o clichê ambulante que somos – e também cabelos brancos; fora ele que fizera com que nossa progenitora abandonasse a ideia de pintar a juba.

Do lado daqui do oceano vejo um número muito maior de mulheres que vivem com os cabelos brancos. Vivem com rugas. Vivem com o tempo. E, não, não são hippies. Mulheres cheias de “estilo” (seja lá o que isso for), que exalam os mais caros perfumes europeus, de saltos (não muitas porque esse chão é de pedra). Enfim, mulheres que, em teoria, parecem vaidosas. Mas faz parte do nosso combo de vaidade esconder a idade, certo? Certo, certo, isso não tá.

Irene Ravache disse um dia que adorava a palavra velha, que ninguém a chamasse de idosa ou de terceira idade. E eu, ainda que não esteja tão perto dessa fase, acho que concordo com ela. Envelhecer é o único jeito de seguir vivendo. E se é, por que insistimos tanto em fingir que isso não acontece? Por que queremos enganar o tempo, se nem Matt Smith conseguiu e acabou virando o Capaldi?

Eu poderia falar um monte sobre a sociedade patriarcal (e, para dizer no mínimo, creepy) em que vivemos. Sociedade que faz com que mulheres “novinhas” sejam as desejadas. Mulheres sem pelos (quando bem sabemos que apenas crianças não têm pelos e... bem, quem tem uma parada com criança, a gente sabe como chama). Mulheres sempre jovens. Cremes e procedimentos estranhos para tirar rugas, para mudar expressões, para rejuvenescer dez anos, para parecer com o que fomos aos 20. Honestamente, eu queria voltar aos 17, por um único dia da vida, de resto, eu super pularia os vinte. Acontece que, para já, eu vou deixar passar o discurso feminista. Vou deixar passar porque acho que agora é mais importante falar sobre o tal do tempo. Somos obra dele, no fim do dia (literalmente). E eu acho tão mais incrível ver que o tempo não cria apenas marcas internas. Gosto de olhar para as fotos dos meus vinte anos? Não muito. Uns pouco kilos a menos, menos marcas de expressão e só.

Dizem que mulheres mais velhas não devem ter cabelo grande, não é elegante. Dona Nave está com as madeixas compridas e meio brancas, meio pretas, meio cinzas. Dizem que levantar o olhar é preciso, e eu meio que imagino a cena de Meryl Streep fugindo do cirurgião em “It’s complicated”. Um dia, no ano da formatura, acompanhei a velhinha (como ela finge que é) em uma consulta. Ao questionar o cirurgião sobre o meu nariz, minha mãe recebeu como resposta uma pergunta: Te incomoda, Taiana, o teu nariz? Queria dizer que não, mas alguém que sofre de rinite e sinusite não poderia mentir assim. Queria dizer que não, mas alguém que foi chamada de batatinha na infância, sabe que o mundo estético é cruel. Eu disse não, simplesmente porque ele é meu nariz, porque não faz sentido mudar algo só para atender um padrão que nem fui eu que impus. Porque ainda que eu ache que ele pudesse ser menos gorducho, ele cabe no meu rosto.

Eu torço pelo meu cabelo branco como quem torce pelo pedido de estrela cadente. Vai que com uma mecha venha também a calma e concentração necessárias. Vai que eu, enfim, me torne quem eu gostaria de ser. Cabelo e rugas expressam, contam histórias. E já disse o Doctor, somos histórias, afinal. Se alguém as esconde talvez esse alguém não saiba bem quem é.

Obrigada, Nave, pelos teus cabelos brancos. E desculpa, sei que boa parte deles é porque vives comigo a escrita da minha própria história.
Sem os teus cabelos brancos, eu não me sei bem. Que os meus, um dia, façam jus aos teus.