Literal

Na busca por um lugar no mundo das palavras, a seção reúne textos em prosa e com poesia. São contos, crônicas, tentativas de folhetins. Histórias inspiradas na própria vida e, também, imaginadas pelas cabecinhas adolescentes de Taiana Homobono e de Thaís Braga.

Engraçado como mudam-se os tempos e mudam-se as vontades. Não, não fui eu quem disse. Foi Camões. O poeta português que não viveu o bastante para acompanhar o revival das Spice Girls pelo Reino Unido. A boa e velha turnê caça-níqueis. Victória Beckham (outrora Adams) já tem dinheiro o suficiente pra rasgar, então nem se dá ao trabalho de fingir que canta. Tudo bem, quem pode culpá-la? Uma das vantagens de envelhecer é que já não precisamos fazer o que não queremos para agradar uma audiência que odiamos, exceto que a amamos. A Thaís de 1998, que ainda não superou a saída da Geri Halliwell anunciada pela Sandra Annergerb, no Jornal Hoje, vibra e canta junto com as #grlpwr. So say what you want, what you really, really want! Mas a Thaís de 2019 está mais para Belchior: desesperadamente, gritando em português.

Eu nunca pensei que fosse viver tempos tão hostis. E olha que já fomos iluminados das trevas! Pelo menos, é o que consta nos livros de História. Custa-me crer que, com o nível de informação e desenvolvimento (na falta de palavra melhor) das nações; com a ciência e a tecnologia desvendando de estruturas genéticas a buracos negros; com o estabelecimento de direitos universais (os quais independem de cor da pele, de condição socioeconômica, de gênero ou de orientação sexual)... com tudo isso, parece que em vez de melhorarmos, de evoluirmos, de realmente honrar o intelecto da espécie humana... parece que nem os macacos já nos querem como parentes distantes.

Não falo só do atual (des)governo brasileiro. O mundo, de maneira geral, está ao contrário. A extrema direita vem crescendo. Ponto. Mas, da idiossincrasia que me cabe, reservo um lugar especial para o país onde nasci. Bolsonaro está, dia após dias, dizimando todos os direitos conquistados à base da luta e do suor do povo em nome do capital. Pessoas são mortas com 80 tiros, mas, segundo MoroN, isso acontece. Pena que não acontece em condomínios fechados de gente branca. Não acontece com os banqueiros. Cursos superiores das Ciências Humanas são fechados. Universidades públicas sofrem cortes. Professores são demonizados e “mitos” exaltados. Propõe-se uma reforma previdenciária goela abaixo. Engraçado como o “país que mais preserva o meio ambiente” é o mesmo que quer eliminar as reservas indígenas e que nada faz para conter os danos causados pelas mineradoras. 

Eu poderia continuar por mais um tempo. Argumentos é o que não faltam. Mas nenhum deles é o bastante para explicar por que eu e boa parte das pessoas (sim, nem todo mundo é estúpido) conseguimos ver essas merdas, enquanto há os que adotaram o Bolsonaro como bicho de estimação e, não importa o que ele faça de errado, está certo. Alguém explica essa lógica? Quer dizer, não dá para explicar, justamente porque não tem. É irracional ainda apoiar esse governo que parece caminhar a base de memes no Twitter. O mais difícil é ver as pessoas com trajetória igual ou semelhante a minha, como primos e tios; amigos de faculdade; amigos de funcionalismo público... é difícil ver essas pessoas exaltando que “a culpa é do PT”, que “o PT quebrou o país”, que “pelo menos o Lula está preso e a Dilma, fora”.

Desculpa, mas não dá para dialogar com esse tipo de pessoa. E essa minha reação, compartilhada pela partner, embora se justifique em nome da saúde mental, não é o que a democracia merece. Porque a gente sai do facebook, a gente bloqueia no whatsapp, a gente vive uma vida cada vez mais reclusa... e os extremismos vão se sentindo cada vez mais a vontade para soltar as merdas deles para todo o canto.

“Então, partner, está tudo bem? Queres conversar?”
“Está tudo indo. Conversar sobre o quê?”
“É que não teve texto ontem e ontem era teu dia...”
“Ah, pois é... Eu meio que não tinha nada o que falar.”
“Entendo... eu também ando meio sem ter o que falar.”
“...”
“...”

Nas melhores histórias, a resistência vale a pena. A resistência é heroica. Da mesma forma, a resistência é a que mais sofre baixas. Eu viveria mil vidas, mas jamais me uniria ao esquadrão do Bolsonaro. Não que eu seja 100% perfeita. Sirius Black já provou que temos luz e sombra dentro de nós. Bolsonaro representa tudo de fascista e de misógino que há; tudo de irracional e de desrespeitoso; tudo de medieval e de ultrapassado. Mesmo cansadas, mesmo com vontade de desistir, seguimos. O que dizemos ao Bolsonaro? Hoje não!