Literal

Na busca por um lugar no mundo das palavras, a seção reúne textos em prosa e com poesia. São contos, crônicas, tentativas de folhetins. Histórias inspiradas na própria vida e, também, imaginadas pelas cabecinhas adolescentes de Taiana Homobono e de Thaís Braga.

Eu já sonhei em viver no Reino Unido. E, nesse caso, nem posso culpar o Harry. Menos ainda o príncipe. Foi talvez a Cultura Inglesa e todo o excesso de sotaque. Eu segui apaixonada pela ideia de um dia viver em terras britânicas. Nesse plano, eu iria estudar em Oxford. E em algum momento, viraria escritora.

Houve um período de querer viver na Itália. Não sei explicar os motivos. Mas era por lá que eu me imaginava uma bailarina. Deixemos de lado o fato de sempre ter achado o italiano uma língua pra lá de feia. Depois, a vida foi acontecendo, e eu fui pensando em outros lugares. Até o Uruguai já esteve na lista. O que fazer se o gordinho que habita em mim sonha em viver de medialunas e alfajores?

Então, veio Paris. E mesmo sem nunca ter pisado na terra de Quasimodo, eu me imaginava construindo uma história lá. Aliás, me imagino até os dias atuais. Ainda é um plano, um desejo, uma ideia que existe e tem toda pretensão de acontecer. 

Mas nunca houve o Porto. Nunca houve Portugal. 

Acontece que os dias acontecem. E, muitas vezes, eu me senti sendo expulsa de um lugar. Foi assim com Belém. Foi assim com São Carlos. Foi assim com São Paulo. E, cá pra nós, SP foi o cara mau, sabe? Aquele por quem a gente sempre cultivou uma quedinha, com quem a gente se imaginava vivendo um bom caso. Daí, quando, finalmente acontece, o carinha não liga no dia seguinte, some por dias e depois reaparece como se tudo estivesse bem. E a gente, boba que é, vai insistindo, sabendo que não faz bem, mas insistindo. Dando chances, tentando de novo. Mudando o vestido, o corte de cabelo, a atitude, tudo em vãs tentativas de fazer o caso virar o romance da vida. SP e eu fomos assim. Uns bons cafés, umas noites de jazz, uns jantares impressionantes. E só. O dia seguinte sempre vinha para lembrar que aquela história não duraria. 

Aí, eu resolvi que precisava seguir adiante. Pra algum lugar onde eu pudesse reconstruir. Ideias, sonhos, planos. Recomeço pós pé na bunda. Como todo mundo já fez um dia, fiquei pulando de uma possibilidade para outra. Minha cabeça quadrada ainda insistia comigo que era preciso seguir um projeto. E eu o tinha. Ou achava que tinha. 

Para cada mês, eu pensava em um lugar. E por lá ficava, vagando entre as universidades, os cursos, a vida que me aguardaria. Colecionei, até o momento final, cadernos de cursos, recheados de fotos e histórias. Acabei em nenhum deles. Por vários motivos. Nenhum necessário de ser escrito.

Até que a gente se esbarrou. Em um daqueles dias em que tudo que se quer é um cappuccino aromatizado. Sabe aquele bem artificial? É que um café bem preparado nem sempre supre a necessidade de açúcar e conforto. Lá estava a ideia de um lugar para recomeçar. Sem as esperanças antigas, sem os velhos porquês.

Eu sei que já deveria ter falado antes disso. Já completamos mais de um ano de história. Estamos bem longe de ser um caso. Bem longe disso. Temos tentado ser uma boa amizade. Acho que meio que o Porto sacou que não tinha os clichês suficientes que meu coração exige. Nada de grandes histórias de amor. Nada de contos de fadas. A cidade tá lá. Ou melhor, tá aqui. Dizendo para eu me achar. E me perder. E me achar de novo. 

De cara, eu sabia que não seria amor. Nem dos avassaladores. Nem das calmarias. Seria descoberta. Mais de mim do que dele. Seria a solidão das perguntas. 

Em anos, pela primeira vez, eu me sentia sozinha, novamente. Sozinha com as tantas vozes que ecoam na minha cabeça. E isso foi o primeiro susto. Afinal, eu havia resolvido me aventurar em uma terra que falava a minha língua. Não deveria ser tão difícil assim. Mas foi. Foi difícil e foi bom. Tão bom que me deu ainda mais dúvidas, mais medos, mais mudanças. 

Em além mar eu não encontraria as paixões. Meu coração continuaria batendo mais forte pela Torre Eiffel que pela Torre do Clérigos. Eu continuaria consumindo muito mais o inglês que a língua portuguesa. Tudo isso diria que a relação não teria futuro. Só que o Porto foi me dando o que eu mais precisava, o que eu mais buscava ao sair para o mundo. O Porto me deu um lugar para me olhar. Para olhar para trás e dizer: mas como foi que eu fiz isso comigo? Porque talvez seja essa a beleza dos amores que não acontecem, eles vagam dentro da gente para tentar achar um lugar nas gavetas de recordações. Nessa busca, acabam colocando para fora os sentimentos que deixamos enterrados lá no fundo dos armários, nas caixas de medo ou cansaço. 

E foi assim que o Porto e eu nos encontramos. Na cidade que respira literatura. Na praça do Garret, na Lello, nas paredes repletas de poesias, nos guardanapos de cafés, e até nos saquinhos de açúcar. Porto foi me devolvendo a ligação mais forte que eu cultivo, as palavras. Todos os dias, ele me lembra: ei, o que vais fazer com esses números? ei, olha só o que eu te escrevi. Nada de segurança, porque essa é outra vantagem do que não é amor. Nada é seguro. É o empurrão para a aventura. You jump, I jump! E ainda que o Porto seja calmaria, seja beira de rio, seja um tempo em que há tempo para se ter mais tempo, ainda assim, o Porto me diz: se não agora, quando? 

Eu sei e ele também sabe que tem o pôr do sol mais bonito, e ainda assim me encanta mesmo quando o frio chega. Me encanta porque deixa que eu me recolha nas casas de pedras, nas salas de chá, na decadência de cidade antiga. Ele sabe que mesmo com tudo isso nossa história não é para sempre. Ele me mostrou isso. Mais uma vez me disse: Vai, olha o mundo! E eu tenho olhado. E tenho pensado, diariamente, qual será o próximo lugar a me questionar. E tenho querido buscar a próxima hora de fazer as malas e partir. E tenho imaginado se será paixão avassaladora, amor impossível ou calmaria de bons encontros. 

Nesses mais de 365 dias eu sei que o Porto me deu o que eu precisava. E só por isso, e por tudo isso, ele jamais viverá no fundo dos armários dos amores sem futuro.  

O Porto é o lugar onde eu vivo a paz de não saber.