Literal

Na busca por um lugar no mundo das palavras, a seção reúne textos em prosa e com poesia. São contos, crônicas, tentativas de folhetins. Histórias inspiradas na própria vida e, também, imaginadas pelas cabecinhas adolescentes de Taiana Homobono e de Thaís Braga.

 “Não sei se vou pintar o cabelo para a formatura do mano, filha.”
“Ah, acho que não precisas pintar, Nave.”
“Se eu não pintar agora, não pintarei mais. Teu irmão falou que não é para pintar.”
“Eu concordo com ele e além do mais, a comemoração é dele, ele tem direitos.”

"Amiga, quando um planeta tá retrógrado, ele tá para todos os signos ou para um em especial?"

"Ele tá para geral, mas pode afetar uns mais que outros."

"E como eu sei?"

"Tem a ver com mapa astral. Gata, tu tás desesperada mesmo, né?! Apelando para os astros."

"É, acho que só quero entender como tanta coisa pode acontecer ao mesmo tempo."

No primeiro ano do ensino médio eu li “Companheiras” e Sabo se fez presente para o resto da minha caminhada. Quem já nos lê por aqui bem sabe que a ditadura militar possui um apreço meu (no sentido mais duro e menos poético). Ser filha de uma mulher que, com uma barriga maior que uma melancia, carregando o pequeno gigante Bú, fazia greve, talvez tenha me dado a constante ideia de justiça. Em casa, eu também já disse, cresci com as cartas de Che, e por pouco (salve revista Marie Claire), não me chamei Hildita.

Engraçado como mudam-se os tempos e mudam-se as vontades. Não, não fui eu quem disse. Foi Camões. O poeta português que não viveu o bastante para acompanhar o revival das Spice Girls pelo Reino Unido. A boa e velha turnê caça-níqueis. Victória Beckham (outrora Adams) já tem dinheiro o suficiente pra rasgar, então nem se dá ao trabalho de fingir que canta. Tudo bem, quem pode culpá-la? Uma das vantagens de envelhecer é que já não precisamos fazer o que não queremos para agradar uma audiência que odiamos, exceto que a amamos. A Thaís de 1998, que ainda não superou a saída da Geri Halliwell anunciada pela Sandra Annergerb, no Jornal Hoje, vibra e canta junto com as #grlpwr. So say what you want, what you really, really want! Mas a Thaís de 2019 está mais para Belchior: desesperadamente, gritando em português.

“I believe in true love. I believe in love at first sight. I believe love conquers all. 
And that doesn't mean there's not gonna be hard days or difficult things to deal with,
because there will be. But finding that person who does it for you and knowing
that person loves you back it just makes everything so much easier.”

(Haley James Scott)

Aos 34 anos, Taiana acorda cedo todos os dias. “Sempre dormi pouco. Houve um tempo em que costumava dormir depois do almoço, mas até isso perdi”, afirma. “Minha teoria é que dormir pouco justifica o fato de eu ser baixa, pois dizem que, quando se dorme, se cresce”. Falta de altura ou falta de sono não comprometem a identidade da paraense, que pode ou não estar com as unhas das mãos feitas, porém as unhas dos pés estão sempre pintadas com “verniz” vermelho; que tem na cozinha, além das espátulas, panelas e pratos, balanças, fita métrica e uma calculadora para converter as medidas; e que adora lingeries.

 

Eu pretendia falar sobre o vinte e cinco aqui em Portugal. O dia em que, armados com cravos, os tugas puseram fim a ditadura (ou como dizem os conhecidos da direita, ao regime político do Estado Novo) que durava mais de quarenta anos. É bonita a história e eu, juro que indico, de coração aberto, que as pessoas que para cá se dirigem, procurem no sábio Google, sobre o evento. Aproveitem e mandem no grupo do zap. Foi um movimento iniciado pelas Forças Armadas, uma galerinha que já havia participado de uma guerra, e as causas eram próximas ao povo: voilà. Povo unido, no fim das contas. Gosto quando passo, semanalmente, para tomar café, na padoca natureba daqui de perto, e encontro a placa “Para sempre 25 de abril”. Gosto mais ainda de receber cravos nas ruas. Gosto que haja estátuas, monumentos, documentários. Os tugas ganham meu coração de filha de uma guevarista.

Por vezes, partner e eu conversamos sobre personagens de livros. No geral, comparamo-las às nossas mães, amigas. No geral, discordamos sobre o que achamos. No geral, quando eu me encontro em alguma é exatamente na que a Thá não curtiu. Vide Harry Potter: eu adoro a Ginny, Thá a acha tola e dependente do herói. Na contramão, ela ama Hermione, enquanto eu, muitas vezes acho que a bruxa não sabe se colocar no lugar do coleguinha órfão e cagado do rolê. Nisso tudo, eu gosto mesmo é da discussão. Já sei, de cara, ao indicar um livro ou filme, quem minha parceira de escrita irá amar e quem irá odiar.

Cabelos longos, escuros e lisos. Óculos de acetato. Tatuagens. Desde que conheci a Taia, há 14 anos, essas características não mudaram muito. As circunstâncias, os contextos – ah, esses são demasiado diferentes. Naquele 2005, éramos jovens estudantes de Engenharia Ambiental, na Universidade do Estado do Pará. Ela, em Belém. Eu, em Marabá. Demoraríamos mais alguns anos e tantos (des)encontros para descobrir o jornalismo, a leitura/escrita e Harry Potter como denominadores comuns.

- E então, o que é que vai ser?

- Tu sabes que esse é o começo de Clockwork Orange, não sabes?

- Não muda de assunto. Vais escrever ou não vai?

Dia das mulheres. Para nós, do #timeLiteral, mês das mulheres. O ano inteiro, todos os dias até o fim dos dias. Viva todas elas!! E antes que o amigo leitor leve a mal, entenda que se trata de igualdade. Apenas e tão somente. De volta ao sexo nada frágil, penso que temos grandes exemplos de mulheres (reais e literárias) fodas. Há alguns anos, partner e eu falamos sobre as nossas favoritas: Hermione Granger, Minerva McGonagall, Luna Lovegood, Gina Weasley, Ninfadora Tonks; Arya e Sansa Stark; Michelle Obama, Hilary Clinton; Caitlin Moran; Conceição Corrêa e Socorro Homobono. Daí que o mundo é mesmo “bão”, Sebastião, porque no meu dia a dia enxergo tanta mulher paidégua, tanta mulher dando baile nas adversidades da vida, que tenho vontade de gritar a plenos pulmões: “VAI QUE É TUA, MANA!!! ARREBENTA!!! MOSTRA QUEM É QUE MANDA!!”. Hoje, quero falar de uma dessas mulheres massa, a quem tenho a sorte de chamar de amiga: a Luana.

Acho que era um sábado. Deveria ser sábado. Só isso explica o facto de todos (exceto meu pai, segurem essa informação) estarem na cozinha, pela manhã. Sábados sempre foram os dias em que Conceição cozinha não só o almoço do dia, mas tudo o que se consumirá pela semana, bem como maquinadas e maquinadas de roupas são limpas. Sábados também sempre foram os dias em que é permitido acordar mais tarde, sem a pressão da escola/trabalho logo cedo. Para o meu pai, no entanto, as regras eram outras. Sábados eram os dias em que ele usava para sair de bar em bar, de casa de amigo em casa de amigo, bebendo, fumando e mexendo com as mulheres da rua. De qualquer forma, para esta narrativa, a presença dele não importa. 

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